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Entra. Estás mesmo dentro?
Dá nove passos. Notas a penumbra? Afaga-te?
Senão… Sai! Sente. Ouves o rufar longínquo de um tambor?
Abandona-te.
Deita-te. Imagina o cheiro da terra sob a caruma.
Um desejo risca o espaço. Sim, é real, ela tarda em aparecer.
Viaja agora e mistura-te na multidão.
[Alguém desenhou um olho no chão].
Abre as asas e não te importes com as penas… Que largas.
Desabandona-te, anseia, inquieta-te. Na prata, esse líquido castanho que escorre.
Parte, já.
040117
-Perguntas quem está a vender e sobes lá acima.
Preparei um banho de sais e gel de alfazema e, enquanto L se lava vou à Mouraria.
Chove. Vou de carro, consigo estacionamento, entro pelos becos.
-Quem está a vender?
-Ultima porta à direita. Diz, baixinho, nem o percebi à primeira, o vigia.
Eu já tinha sido ultrapassado por um apressado; fico em fila.
Quase oito da noite, hora de mudança de turno, dos vendedores. «Depois das oito o cavalo não vale nada», disse L.
(Um cachorinho buldogue à entrada do beco. Esboço uma festa. Aproximo-me.)
-Uma de cavalo.
-De quanto?
-De dez.
Dou a nota ao acompanhante, e recebo uma pequena quantidade.
(-Levas esta que é boa, que tu não estrilhas.)
Estranhamente o pequeno invólucro de plástico tem a forma de um coraçãozinho.
Em casa, na sala, enquanto recebo um telefonema, L faz-me sinal indicando que é de boa qualidade.
L : -Eh! Eh!
Eu ,de carro a descer a rua procurando um lugar para estacionar; L , a subir a rua (com o “pai da minha filha” dirá).
-Estás em casa?
-Sim!
…
Mais tarde em casa, um e outro em reencontro, “com histórias de amor eterno “. (Há mais de uma semana que não nos víamos.)
…
Cena seguinte: Abraços, beijos, amor terno. Não!
Fumam crack e cavalo, implodindo em cada um dos seus cérebros; um buraco negro e a sua gravidade infinita.
Digo:
- L ! L !
(L está quase a móchar; dá um bafo de castanha, borrega.). Desperta, dá um bafo, borrega.
Continuo: – Tu acordas-me com o trrim, trrim; eu é com L ,L .
L : -Quem está a vender até às oito é o Ruh; depois já não sei.
Vamos à Mouraria; faço anos. Prometi-lhe que lhe tirava a ressaca, e junto vem uma de branca:
-Esta é da farmácia. (Na Mouraria a branca não é “cozida” e, esta, depois do amoníaco, fica em pasta, papa. Coca química.)
Dá uns quatro bafos médios, dez euros.
…
Passou; encontro num tubo de prata um resto de cavalo. (Chasing the dragon.)
Queimo-o um pouco mal, tusso e quase vomito ao inalar.
Só, estou só.
L diz: -Viu como eu estava nem aceitou os cinco euros. Quando cheguei já não estavas.
-Eu disse que só esperava meia hora, não apareceste!
-Eu disse que voltava. Até tive que usar uma prata dum maço de cigarros.
-L, dizes sempre que voltas. Não voltas!
Enquanto a L desaparece para a casa de banho, i começa uma conversa.
-A L não sente a branca como nós, não achas?
Não sei que dizer; mas penso, e digo:
-Sim, o cavalo é como um tapete, uma almofada. Com a branca equilibra, não sei.
-De certeza que nem tem um flash.
-Não sei.
[Nesse dia, haveremos de dar um bafo ou dois do cavalo da L ; i, inclusive um risco ou dois.
i rapidamente andará a consumir quase uma semana, com a irmã até ter ressacas, quando L a recambia para Camarate.
-Já andava aí a fumar com toda a gente. -L diz.]
Toca duas vezes a medo.
Quando abro a porta diz: – Então, ó borracho!
(Disse-lhe que, para mim, era a coisa mais linda do mundo; mas com ben-u-rons e cecrisinas, o mundo muda.)
…
Como mudei a sala, repara.
Eu digo: -A ideia foi tua.
Mas, tem mais ideias.
-Quando mudás-te?
-Hoje.
-Só visto!
-Sim.
-G’anda maluco.
Mas, mete-se na cozinha e começa a arrumá-la.
(Eu estou cheio de frio, não largo o aquecedor, estava a dormir, já não a esperava; mas, algo está diferente, não foi buscar o banco ou a mesa e preparou o consumo.)
Lava a loiça, abre o frigorifico
-Sabes porque as batatas estão negras? Tirás-te a água às batatas!
-Não tirei!
Não tirei. Mas, no frigorifico, cortadas aos cubos para fritar, absorveram alguma água e na parte de cima enegreceram, queimadas pelo frio, talvez.
-Pronto! Já tens a cozinha arrumada.
Vem para a sala e fuma, da prata, uns restos de castanha.
-Hoje ainda não fumei nenhuma branca.
Parece um lamento. Eu, continuo calado, pois não tenho dinheiro, e o que ela afirma, parece-me uma indirecta, se eu tenho, se quero…
-Estou com uma constipação!
Não o notei. A minha cabeça começa a pensar na branca. Começo a pensar que vi 15 euros em qualquer lado.
…
-Não tens mais uns trocos, assim ficava a dever e trazia uma de branca e uma de cavalo.
Vou aos bolsos das calças e encontro mais um euro; num copo de vidro de iogurte, mais.
…
Não mais apareceu.
080103
Toca duas vezes a medo.
Quando abro a porta diz: – Então, ó borracho!
(Disse-lhe que, para mim, era a coisa mais linda do mundo; mas, com ben-u-rons e cecrisinas, o mundo muda.)
…[Telefonei, atendeu a Dona Teresa, agradeci os bolos de Natal. L aparece com o final duma linha, na prata. ]
O conceito de representar: L traz a Ana do João. Ana representa: um bom bafo da branca dela.
L , não. Peço-lhe porque a branca dela é de outra qualidade e Ana e L discutem-na. Bafo mínimo, de que me desforro; quando L partilha um pouco do seu cavalo com Ana, que não fuma habitualmente, e eu.
L pergunta:
_ Não tens um lápis?
Já enrolou a prata no isqueiro, o tubo está mais ou menos enrolado; mas, é uma perfeccionista.
_ r , o Faí morreu! O meu menino morreu.
É assim, e, sem mais, que aparece L ; L está a chorar. Estendo o meu ombro, mas a L está estática, não me abraça.
Com L , vem a irmã, e uma chupadita que eu nunca vi. É esta que diz qualquer coisa, como:
_ Não tens um calmante?
Não tenho; e, enquanto L e esta última preparam a branca, a chinesa; eu faço um chá de menta, depois de terem rejeitado os meus químicos, o ben-u-ron, aquelas saquetas para a dor de dentes…
O modo como o Faí morreu é-me um tanto incompreensível. De moto, em sentido contrário(?), contra um automóvel. «Partiu-se todo».
[ Nos dias a seguir, compreendo melhor. Sem capacete (melhor, com o boné na cabeça), a estrear, a experimentar a mota levantada nesse dia, acelerando Antero de Quental acima.
Fora dos seus domínios, zona J Chelas, onde era um maiorzinho. ]
Algo como, «andava atrás do Miguel, que lhe devia dinheiro; tinha visto a Vera e tinha dito para ninguém lhe tocar; teve um flash, morreu feliz».
L continua… « r , morreu o meu menino; morreu o meu menino.», e, aspira já o fumo da castanha que escorre na prata.
A chupadita entretanto já saiu, e, a L prepara agora a branca, que partilhará com i.
