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Transporto um tabuleiro com cereais com leite e dois fofinhos à cama, onde está L ; é o pequeno almoço.
-És uma rainha, digo. Sim, porque princesa já muitos te chamaram.
L ri.
080118
Muitas procuras hoje. Também o Bruno, companheiro da irmã, apareceu procurando-a: -Dizem que está com o Dimas!
O Dimas é um vendedor, diz-me L .
L :
- Tenho que ver o agente Guido!
Pergunto porquê, mas não responde. Continua:
- Houve uma altura que ia todos os dias à Super-Esquadra. Quando chegava já tinha um carro-patrulha à espera.
(- Porquê?)
- Quando chegava o agente Guido dizia: «Já não te posso ver, rapariga. Até já sonho contigo.»
L tinha dito: -Tens aí uma garrafa? Encontrei o Nhu do Intendente, ele é do Lumiar, dispensou-me uma do consumo dele, por oito euros.
…
L : -Quem está a vender até às oito é o Ruh; depois já não sei.
Vamos à Mouraria; faço anos. Prometi-lhe que lhe tirava a ressaca, e junto vem uma de branca:
-Esta é da farmácia. (Na Mouraria a branca não é “cozida” e, esta, depois do amoníaco, fica em pasta, papa. Coca química.)
Dá uns quatro bafos médios, dez euros.
…
Passou; encontro num tubo de prata um resto de cavalo. (Chasing the dragon.)
Queimo-o um pouco mal, tusso e quase vomito ao inalar.
Só, estou só.
Saímos da estação do metropolitano para a luz crua da manhã. Não sei porquê olho-a nos olhos; a cor é clara, e isso atinge-me; um encontrão, um murro no estômago. Temos vivido, sobretudo a noite, e junto com L consumindo, olhos escuros como breu eram estados assumidos.
E mudo; penso, até isso conjuga patatis patatás com L , com a conversa orientada, usada abusada. Estou a perder L.
Saio. À rua, comprar tabaco, tomar um café. Na porta de entrada do prédio, paro. Ai que angústia. Inspiro, expiro. Se o coração dói? Dói-me. Respiro para o vidro da entrada. Lá fora é noite, o vidro embacia. Com o dedo desenho um coração, com o dedo escrevo um nome; o teu, L .
L !-penso, agora; neste mesmo momento.
Levanto-me. Tocaram à campainha? Não sei, abro a porta; digo tá(?) no intercomunicador, ninguém responde; vou à varanda, assobio; vejo as horas, 3 e 30 (a 27 não é, só pode ser L ).
[É de admirar que a cidade, as ruelas que percorri no sonho já sejam de geometria definida. Eram sempre diferentes, mas quando sonho, a cidade é sempre a mesma? Esta parece. Estou com um junkie num bairro alto, de ruas ainda mais apertadas. Vou comprar para consumir. Poderia ser uma banhada. O dealer serve-me bem e guardo os 'pingos' na boca. Eh pá, estou a ficar stoned. E lá chego à avenida.]
Levanto-me: tocaram à campainha?
071115
Vejo-a do outro lado da rua. Aponto-a, atravesso, toco-a.
-Onde vais?
-Vou para casa, respondo. E continuo: -A minha camisola?
-Fui lá no outro dia, e na semana passada ás três da manha.
-Duas vezes. Não, não estive lá.
-Estou a ressacar; queria ver se ia à Mouraria.
Como não digo nada, continua: -Passo lá logo à noite.
-Sim, sim, respondo.
071204
L diz: -Vai-me dar sorte!
Tinha-lhe dado um perfume ‘de rosas’; um dos poucos que andavam e restavam pela casa. O que menos gostava! (Uma inconsciente maneira de um vai-à-merda? Pelo menos fez a vez)
L diz: -Viu como eu estava nem aceitou os cinco euros. Quando cheguei já não estavas.
-Eu disse que só esperava meia hora, não apareceste!
-Eu disse que voltava. Até tive que usar uma prata dum maço de cigarros.
-L, dizes sempre que voltas. Não voltas!
